Por Débora Marcolini Schneider-Felberg
A menopausa pode trazer mudanças nos olhos, principalmente por causa da queda dos hormônios sexuais, que influenciam a produção da lágrima e o equilíbrio de algumas estruturas oculares. Entre os problemas mais discutidos na literatura estão o olho seco, o possível aumento do risco de glaucoma em algumas mulheres e alterações relacionadas à catarata. Além da blefarocalaze (excesso de pele das pálpebras), que embora não esteja diretamente relacionado à menopausa, tende a ocorrer nesta fase da vida.
Por que a menopausa pode afetar os olhos?
Os hormônios femininos, como estrogênio e androgênios, ajudam a manter a qualidade da lágrima e o funcionamento da superfície ocular. Quando esses níveis caem, podem surgir sintomas como ardor, irritação, sensação de areia, visão embaçada e maior desconforto ao ler, usar telas ou permanecer em ambientes com ar-condicionado.
Nem toda alteração ocular na menopausa representa doença grave, mas alguns sintomas merecem atenção, especialmente quando são persistentes ou atrapalham a rotina. Por isso, exames oftalmológicos regulares ganham ainda mais importância nessa fase da vida.
Olho seco
O olho seco é a alteração ocular mais frequentemente associada à menopausa. Estudos de revisão mostram que mulheres na peri e pós-menopausa apresentam maior prevalência desse problema, em parte porque as mudanças hormonais podem afetar a glândula lacrimal e as glândulas de Meibômio, responsáveis por produzir componentes importantes da lágrima.
Os sintomas mais comuns incluem ardor, vermelhidão, sensação de corpo estranho, lacrimejamento paradoxal, cansaço visual e visão borrada que varia ao longo do dia. Em muitas pacientes, o desconforto piora com telas, vento, fumaça e ar seco.
O tratamento depende da avaliação oftalmológica, mas costuma incluir lágrimas artificiais, medidas para melhorar o ambiente, pausas visuais e, em alguns casos, cuidados com as pálpebras. Em situações selecionadas, a terapia hormonal pode levar a melhora da superfície ocular, embora esse tema ainda não seja consenso para todas as pacientes.
Glaucoma
Glaucoma é um grupo de doenças que pode danificar o nervo óptico de forma lenta e silenciosa, muitas vezes sem sintomas nas fases iniciais. A literatura sugere que a menopausa pode ser um fator de risco específico para algumas mulheres, porque a redução do estrogênio parece influenciar a pressão intraocular e outras características do olho relacionadas ao nervo óptico.
Como o glaucoma costuma evoluir sem aviso, a principal mensagem é simples: medir a pressão ocular não basta, e o acompanhamento deve incluir avaliação completa do nervo óptico e do campo visual quando indicado. Isso é ainda mais importante em mulheres com histórico familiar, menopausa precoce, miopia alta ou uso prolongado de corticoides.
Catarata
A catarata acontece quando o cristalino, a lente natural do olho, perde transparência com o envelhecimento. Ela é comum com o avanço da idade e aparece no contexto sobre saúde ocular da mulher porque alguns estudos sugerem diferenças relacionadas ao ambiente hormonal e ao uso de terapia hormonal após a menopausa.
Os achados científicos, porém, não são totalmente uniformes. Há estudos que observaram maior incidência de catarata em mulheres após terapia hormonal para menopausa, enquanto outros apontam efeitos diferentes conforme o tempo de uso, a presença de diabetes e o tipo de catarata avaliado.
O ponto mais importante é que catarata continua sendo, acima de tudo, uma condição ligada ao envelhecimento natural do cristalino. A menopausa pode entrar como um contexto biológico relevante, mas não substitui fatores como idade, tabagismo, diabetes, exposição solar e uso de certos medicamentos.
Blefarocalaze
A blefarocalaze é uma alteração das pálpebras em que a pele fica mais fina, frouxa e redundante, contribuindo para aspecto de “pálpebra caída” e, em alguns casos, para sensação de peso sobre os olhos. O que faz parte do processo de envelhecimento da região palpebral, com perda gradual de elasticidade dos tecidos.
Diferentemente do olho seco, do glaucoma e da catarata, a blefarocalaze não aparece como uma doença clássica diretamente causada pela menopausa. Ainda assim, ela pode se tornar mais perceptível nessa fase da vida porque menopausa e envelhecimento costumam acontecer em paralelo.
Quando a pele excedente da pálpebra atrapalha o campo visual, pesa sobre os olhos ou favorece irritação local, vale procurar avaliação com oftalmologista, especialmente com experiência em plástica ocular. Em casos selecionados, o tratamento pode ser cirúrgico.
Quando procurar avaliação
Alguns sinais merecem consulta oftalmológica sem demora: visão embaçada persistente, piora importante da visão noturna, dor ocular, halos em volta das luzes, sensação intensa de ressecamento ou queda da pálpebra que interfere na visão. Mesmo sem sintomas, check-ups periódicos ajudam a identificar alterações silenciosas, especialmente glaucoma e catarata inicial.
O que fazer no dia a dia
Algumas medidas simples podem ajudar a proteger o conforto ocular nessa fase: piscar mais durante o uso de telas, fazer pausas visuais, evitar vento direto no rosto, manter hidratação adequada e seguir corretamente o tratamento prescrito pelo oftalmologista. Essas ações não substituem o exame médico, mas ajudam bastante no controle dos sintomas, principalmente no olho seco.

Débora Marcolini Schneider-Felberg é oftalmologista, especializada em cirurgia de córnea, catarata e pálpebras. Atende na clínica Schneider Serviços Médicos LTDA., que integra a Rede Afinidade da AFPESP.