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COP31: um olhar sobre os desafios do clima e o papel das instituições

Opinião
21 Outubro 2026
21 Outubro 2026

Por Gilberto Natalini

Nos dias atuais, o mundo vive uma realidade climática que já não pode ser tratada como uma hipótese distante. Eventos extremos vêm afetando diferentes regiões do planeta, com impactos socioambientais cada vez mais evidentes. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que as atividades humanas, principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa, contribuíram para o aquecimento global. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), por sua vez, confirmou que os anos de 2015 a 2025 foram os onze anos mais quentes já registrados, sendo 2025 o segundo ou terceiro ano mais quente da série histórica.

No Brasil, por exemplo, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 afetaram cerca de 2,3 milhões de pessoas e provocaram o deslocamento de mais de 600 mil. Já em agosto de 2026, o colapso de uma geleira atingiu a região do Nepal e a fronteira com o Tibete, causando grande destruição e milhares de vítimas. O episódio reforçou a necessidade de ampliar o monitoramento de áreas de risco, os sistemas de alerta e as medidas de prevenção diante de eventos extremos.

Esses acontecimentos mostram que é necessário aprender a antecipar os riscos e preparar as cidades contra eventos extremos, não agindo somente depois que a tragédia acontece. É justamente nesse contexto que as Conferências das Partes, conhecidas como COPs, assumem importância fundamental. No âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP constitui o principal espaço multilateral de negociação sobre a questão climática. As conferências reúnem praticamente todos os países do mundo para discutir redução de emissões, adaptação, financiamento climático, tecnologia e mecanismos de cooperação. Também constituem um importante espaço para o fortalecimento dos compromissos climáticos assumidos pelas nações no âmbito do Acordo de Paris, incluindo suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).

Esses compromissos são fundamentais para orientar políticas públicas, investimentos, transformações nos sistemas de energia e transporte, proteção de florestas, planejamento urbano e medidas de adaptação. No entanto, compromissos internacionais só produzem resultados concretos quando são traduzidos em ações nacionais, estaduais e municipais.

Em 2025, o Brasil teve a responsabilidade de sediar a COP30, realizada em Belém, no Pará, no coração da Amazônia. A escolha do local teve um grande significado político e ambiental, já que colocou no centro das discussões uma região fundamental para o equilíbrio climático e, ao mesmo tempo, chamou atenção para os desafios enfrentados pelos países que possuem grandes florestas tropicais.

A COP30 procurou dar maior ênfase à implementação dos compromissos climáticos, mantendo na agenda temas como financiamento, adaptação, proteção das florestas, transição para uma economia de baixo carbono e fortalecimento das ações nacionais. Entre os resultados, destacaram-se avanços relacionados ao financiamento climático e à adaptação, além da criação de mecanismos voltados a acelerar a implementação das ações climáticas.

Esse processo terá continuidade na COP31, que será realizada em Antália, na Turquia, de 9 a 20 de novembro de 2026. A conferência também deverá aprofundar discussões relacionadas a financiamento climático, à transição energética e aos compromissos nacionais.

É nesse contexto que estarei presente na COP31, representando a AFPESP como Coordenador de Meio Ambiente. A participação insere a Associação em um dos principais espaços internacionais de discussão sobre as mudanças climáticas e permite acompanhar de perto os caminhos que poderão influenciar as políticas ambientais e climáticas nos próximos anos.

É importante ter em mente que a crise climática não é responsabilidade exclusiva dos governos nacionais. Municípios, empresas, instituições, organizações da sociedade civil e cidadãos também possuem um papel importante na construção de soluções. Para uma instituição como a AFPESP, acompanhar esse debate internacional significa também buscar experiências que possam ser traduzidas para a sua realidade e incorporadas às suas próprias operações.

Este ano, a COP31 não vem recebendo o mesmo nível de atenção pública quando comparado a edições anteriores. O mundo enfrenta inúmeras outras emergências, tais quais guerras e crises econômicas, que disputam espaço na agenda internacional. Talvez seja justamente em momentos de menor mobilização que a continuidade do processo climático se torne ainda mais importante, já que é por meio desse espaço multilateral que mecanismos de cooperação podem ser construídos.

Em escala nacional, também é necessário que o Brasil continue fortalecendo suas políticas públicas nas áreas de meio ambiente e de enfrentamento das mudanças climáticas. O país possui importantes vantagens, especialmente pela participação expressiva de fontes renováveis em sua matriz energética. Da mesma forma, é fundamental fortalecer a fiscalização ambiental, reduzir as taxas de desmatamento e aprimorar a capacidade de prevenção, preparação e resposta às emergências climáticas.

Talvez a melhor maneira de compreender a importância de uma COP seja através de uma pergunta simples: se a crise climática exige que o mundo se comprometa, como seria possível enfrentá-la sem um espaço de diálogo entre os países? A resposta ajuda a compreender por que, apesar de suas limitações, as COPs continuam sendo necessárias.

Elas oferecem um dos principais mecanismos existentes para que o mundo tente enfrentá-la de forma coordenada.

 

 0429 Imagem interna Gilberto Natalini

 

 
 

Gilberto Natalini é coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista. No setor público destacou-se como secretário do Verde e do Meio Ambiente e secretário executivo de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo. Eleito vereador de São Paulo pela primeira vez em 2000, cumpriu o seu quinto mandato até 2020. É autor de 419 projetos de leis e tem 147 leis aprovadas. Suas principais bandeiras de vida são a democracia, o desenvolvimento sustentável, maior equidade social e a moralidade pública.

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