Mais um ponto no currículo da agenda socieconômica
Por Gilberto Natalini
A eficiência energética é um dos temas mais discutidos da atualidade e é justamente por este motivo que reduzir desperdícios e tornar o consumo mais eficaz é fundamental. Sempre digo que prevenir é melhor do que remediar, e neste caso não é diferente. No Brasil, essa preocupação ganhou força com a Lei nº 10.295/2001, que estabeleceu a Política Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia e permitiu a definição de níveis mínimos de eficiência para equipamentos. Adicionalmente, o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) também contribuiu para evitar o consumo de mais de 287 bilhões de kWh ao longo de seus 40 anos de existência, o que é equivalente ao consumo residencial brasileiro durante cerca de um ano e meio.
Apesar da existência destes instrumentos, em um cenário de mudanças climáticas, sozinhos eles não oferecem a solução. Venho defendendo há muitos anos que é essencial também reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, cuja utilização ainda está associada a contratos e políticas públicas para geração de energia elétrica no Brasil.
Nesse sentido, o Brasil parte de uma posição privilegiada. Em 2025, 86,8% da eletricidade ofertada no país teve origem renovável, sendo que eólica e solar responderam juntas por 26,4% da geração. Ainda visando diminuir a influência desses combustíveis fósseis, o 3º Leilão de Suprimento aos Sistemas Isolados, também realizado em 2025, estabeleceu participação mínima de 22% de fontes renováveis nos projetos contratados e permitiu o uso de baterias para armazenamento de energia. Com isso, a pretensão é diminuir também o uso de combustíveis fósseis em localidades isoladas, cujo modelo de produção de energia sempre esteve ligado ao consumo de óleo diesel, com geração de energia por meio de termelétricas.
É nesse contexto que o mercado livre de energia ganha importância. Diferentemente do mercado cativo – em que o consumidor compra energia da distribuidora local por meio de tarifas reguladas – no mercado livre é possível negociar diretamente com geradores ou comercializadores. Isso permite escolher condições como preço, volume e prazo e, o mais importante do ponto de vista sustentável, a origem da energia, comprovada por meio da aquisição de certificados denominados I-REC.
Além do benefício ambiental, o mercado livre também pode estimular ganhos econômicos. Durante muitos anos, a contratação de energia nesse ambiente representou uma oportunidade significativa de redução de custos, especialmente para consumidores que conseguiam negociar contratos de longo prazo com fontes renováveis. Nos últimos anos, essa diferença se estreitou em razão de mudanças regulatórias, preços de energia e novos encargos, mantendo, ainda assim, uma vantagem econômica em comparação ao mercado cativo.
A partir disso, a AFPESP passou a integrar mais um ponto no currículo da agenda socioeconômica quando ingressou no mercado livre de energia em janeiro de 2026, com contratos que renderam à associação uma economia média de aproximadamente 14%. O resultado mostra como a sustentabilidade e a economia são temas complementares quando planejados e bem negociados.
O destaque desta reflexão fica por conta do dilema de que a busca por uma energia mais limpa depende exclusivamente do tipo de contratação e do consumo consciente e, nesse sentido, a AFPESP pratica economia e sustentabilidade no quesito da energia limpa. Um exemplo concreto de que é possível falar e fazer.

Gilberto Natalini é coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista. No setor público destacou-se como secretário do Verde e do Meio Ambiente e secretário executivo de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo. Eleito vereador de São Paulo pela primeira vez em 2000, cumpriu o seu quinto mandato até 2020. É autor de 419 projetos de leis e tem 147 leis aprovadas. Suas principais bandeiras de vida são a democracia, o desenvolvimento sustentável, maior equidade social e a moralidade pública.