Por Henrique Bottura
O início de um novo ano costuma ser acompanhado por expectativas, planejamentos e resoluções. Mas, entre metas profissionais, reorganização de rotinas e projeções financeiras, uma dimensão essencial continua sendo negligenciada: a saúde mental.
É justamente para ampliar essa consciência que existe o movimento Janeiro Branco, dedicado à promoção do bem-estar emocional e ao incentivo de ações preventivas ao longo de todos os meses, não apenas no primeiro.
Nos últimos anos, o cenário global revelou um crescimento expressivo de transtornos relacionados ao estresse, ansiedade, depressão e esgotamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que mais de 300 milhões de pessoas convivem com depressão, enquanto os transtornos de ansiedade afetam centenas de milhões em todo o mundo.
No Brasil, o quadro também merece atenção: cerca de 11,5 milhões de pessoas vivem com depressão e aproximadamente 18,6 milhões enfrentam transtornos de ansiedade. Esses números não representam apenas estatísticas, são pessoas reais, famílias impactadas e vidas atravessadas pelo sofrimento emocional.
Por isso, o Janeiro Branco nos convida a olhar para o próprio bem-estar com mais seriedade e gentileza. Cuidar da saúde mental não é apenas evitar crises; é construir uma vida mais equilibrada, com espaço para descanso, lazer, relações saudáveis, conversas verdadeiras e momentos de pausa. É reconhecer que pedir ajuda faz parte do processo e não é fraqueza fazer terapia, consultar o psiquiatria ou, quando necessário, aderir a um tratamento com uso de medicação. Querer se cuidar é um ato que requer muita coragem e bravura.
No trabalho, na família ou na rotina pessoal, pequenas escolhas diárias fazem diferença: respeitar limites, compartilhar preocupações, evitar a autocrítica excessiva e se permitir viver com mais leveza.
Que este novo ano seja um lembrete de que cuidar da mente é investir na própria vida. E, se em algum momento você sentir que este artigo não se aplica diretamente a você, lembre-se: talvez alguém próximo, um amigo, um familiar ou um colega esteja precisando justamente dessa escuta, desse acolhimento ou desse incentivo para pedir ajuda.
Quando reconhecemos o sofrimento do outro e oferecemos apoio, nos tornamos agentes de transformação. Porque cuidar de si é essencial, mas cuidar do outro também importa e pode fazer toda a diferença no dia, no ano e na vida de alguém.

Henrique Bottura é médico psiquiatra e CEO do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP), além de fundador do Instituto de Infusões Paulista. Mestre em Psicologia do Esporte pela UNESP, integrou o LEPESPE (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte). Na USP, foi responsável pela área de ensino do Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso (Pro-AMJO). Reconhecido como uma das maiores referências no Brasil em vícios relacionados a jogos de azar, atualmente dedica-se também a pesquisas e palestras sobre saúde mental no ambiente corporativo. Atualmente, atende na Rede Afinidade, uma plataforma administrada pela Coordenadoria de Assistência à Saúde da AFPESP.