Por André Santos Pereira, Artur Marques e Rodrigo Spada
Os servidores públicos têm um compromisso ainda maior com o voto consciente. Por conhecerem de dentro a máquina pública, sabem do potencial do serviço público e também dos riscos que seu enfraquecimento traz ao Brasil. Essa percepção nasce da experiência: quem dedica a vida ao Estado sabe que nenhuma política relevante se sustenta apenas na vontade de um governante. O desenvolvimento de um país depende da qualidade de suas instituições, da capacidade de planejamento do Estado e da existência de servidores preparados para transformar decisões em resultados concretos para a população.
Essa mesma experiência ensina que o Estado não se constrói a cada eleição. Instituições são fruto de um processo contínuo, aperfeiçoado ao longo de décadas, e são elas que garantem estabilidade, segurança jurídica, previsibilidade e continuidade às políticas públicas. Quando esse patrimônio é tratado com descuido, ainda que dentro do curto ciclo de uma gestão, o prejuízo costuma ser profundo e duradouro. O Brasil conhece bem esse padrão: ao longo de sua história, preferiu com frequência interromper políticas em vez de aperfeiçoá-las, substituir estruturas em vez de corrigir suas deficiências, transformar o debate sobre o Estado em disputa ideológica. Com isso, perdeu tempo, desperdiçou recursos e deixou de enfrentar problemas que exigiam continuidade e capacidade técnica.
Servidores públicos, por atuarem na execução cotidiana das políticas, testemunham de perto o custo dessas escolhas. Veem projetos interrompidos por mudanças de gestão, equipes desmontadas sem justificativa técnica, recursos investidos em iniciativas que não chegam a amadurecer. Essa vivência confere a essa categoria uma responsabilidade particular no momento do voto: reconhecer, entre os candidatos, aqueles comprometidos com a construção de um Estado mais eficiente e menos suscetível a rupturas.
Não se trata de defender a permanência de estruturas ultrapassadas ou de resistir a mudanças necessárias, mas, sim, de diferenciar reforma de desmonte. Uma reforma bem conduzida fortalece o serviço público, aprimora processos e corrige distorções sem comprometer a capacidade do Estado de atender à população. O desmonte, por sua vez, costuma ser apresentado sob o rótulo de modernização, mas na prática esvazia carreiras, sucateia órgãos e transfere para o futuro problemas que já poderiam ter sido resolvidos.
A valorização do servidor público integra esse mesmo debate como condição para que o Estado consiga atrair e reter profissionais capacitados. Concursos públicos, planos de carreira estáveis e remuneração compatível com a complexidade das funções exercidas são investimentos na capacidade do país de planejar e executar políticas de longo prazo, da segurança pública à saúde, da educação à infraestrutura.
O voto consciente do servidor público, portanto, não é apenas um exercício de cidadania individual. É também uma forma de proteção institucional, um gesto que reconhece o papel insubstituível do Estado na vida do país e busca, a cada eleição, assegurar que esse papel continue sendo cumprido com responsabilidade, técnica e visão de futuro.

André Santos Pereira é delegado da Polícia do Estado de São Paulo, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública (Escola Superior de Direito Policial/FCA), presidente licenciado da ADPESP (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) e diretor de Estudos e Propostas Legislativas da ADEPOL-BR (Associação dos Delegados de Polícia do Brasil).

Artur Marques é desembargador aposentado do TJ-SP e presidente da AFPESP, tendo entrado para o quadro associativo em 31 de janeiro de 1985. Em 2010, tornou-se conselheiro da associação. É doutor em direito pela USP e foi professor de Direito Civil da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e na Unesp.

Rodrigo Spada é auditor fiscal da Receita Estadual de São Paulo e presidente licenciado da Febrafite (Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais) e da Afresp (Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo). Formado em Engenharia de Produção pela UFSCar e em Direito pela Unesp, com MBA em Gestão Empresarial pela FIA.