Plataforma usa dados simples para análise de chances de reaparecimento da doença e possibilita tratamento personalizado a cada paciente
Por Jéssica Silva
E se, por meio de inteligência artificial, um médico pudesse saber se o câncer de um paciente tem chances de voltar em dois ou dez anos, para assim aprimorar seu tratamento?
Foi dessa premissa que pesquisadores do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) desenvolveram o “BreastOncoPredict”, um software que usa IA para prever o risco de recidiva do câncer de mama.
A plataforma é resultado de um projeto iniciado em 2019 para montar um banco de dados de mais de 4 mil pacientes do Icesp. A partir disso, foi elaborado um modelo preditivo – que utiliza várias metodologias de inteligência artificial para estatisticamente “prever o futuro” dos dados analisados.
“Existem muitos subtipos de câncer de mama e várias linhas de tratamento. Pensamos exatamente se poderíamos fazer uma ferramenta que ajude o médico a prever se a resposta ao tratamento está sendo boa, se esse tumor pode crescer durante o tratamento ou até mesmo voltar”, conta a pesquisadora líder do estudo, Luciana Carvalho Barros.
O câncer de mama feminina é o mais incidente no Brasil, segundo levantamento do Instituto Nacional de Câncer. Somente em 2023, mais de 20 mil mulheres morreram por causa da doença no país. E a estimativa é de que apareçam mais de 78 mil novos casos por ano até 2028.
Apesar de tratável, alguns tipos de câncer de mama mais agressivos, como o triplo-negativo, apresentam maior possibilidade de voltar, de acordo com a Sociedade Brasileira de Mastologia.
“Estudamos casos de recidiva precoce, em que ocorreu em dois anos, e casos em que dez anos depois da alta houve o retorno do tumor. Dessa forma, com base nas informações de cada paciente, o software pode sinalizar qual é de alto risco e qual é de baixo”, destaca Luciana.
Inovação acessível
A pesquisadora conta que existem exames clínicos que fazem a mesma “previsão” a partir de uma biópsia do tumor, porém são caros, “custam mais de 5 mil dólares e não são feitos no Brasil. Demandam tempo e, obviamente, a maioria das pessoas não consegue fazer”, ela frisa.
Já a ferramenta desenvolvida pelos pesquisadores utiliza dados simples, como o estágio clínico do tumor, a idade da paciente e um hemograma completo, para gerar a estimativa de risco. “Nossa ideia foi sair dos 5 mil dólares para zero, totalmente aplicável ao SUS [Sistema Único de Saúde] sem custo nenhum”, ratifica a servidora pública.
Simulação de análise do software “BreastOncoPredict”, que usa inteligência artificial para prever o risco de recidiva do câncer de mama. Imagem: reprodução Jornal da USP
Ela conta que o software ainda está em fase de aprovação clínica e foi calibrado para o perfil de tratamentos existentes no SUS mas, futuramente, podem ser acrescentados módulos com tratamentos realizados em hospitais particulares para auxiliar os médicos também do setor privado. Ainda, será realizado um estudo prospectivo, para acompanhar as pacientes e os prognósticos da plataforma.
Mais de 40 programas de inteligência artificial foram testados para chegar em quatro que rodam por trás da plataforma. Luciana destaca que a tecnologia é “explicável”, ou seja, é possível saber o que é considerado e o porquê – o que possibilitou até mesmo um novo olhar sobre a análise clínica.
“Colocamos todos os critérios e pedimos para a IA pontuar o que mais valia para a predição. Imaginávamos, com base na literatura científica, que os linfócitos [tipo de glóbulo branco produzido na medula óssea] seriam os mais importantes. Mas fomos surpreendidos quando a série vermelha do sangue [glóbulos vermelhos] saiu com muita importância”, relata Luciana.
Da biologia à tecnologia
A pesquisadora Luciana Carvalho Barros. Foto: acervo pessoalLuciana é especialista em biologia celular e molecular e em imunologia. No Instituto Nacional do Câncer, trabalhou com a imunologia de tumores e terapia celular para leucemias. Veio para São Paulo, em 2019, para atuar especificamente no projeto sobre câncer de mama do Icesp.
“Fazíamos análise molecular genética das pacientes com câncer de mama; recrutamos pacientes com menos de 40 anos e aí montamos o banco de dados que originou o projeto do software”, conta a pesquisadora.
Para que o projeto andasse, ela destaca, foi fundamental a colaboração de profissionais de diversas áreas: “A primeira coordenadora era da engenharia da computação; ainda tivemos ajuda de físicos, médicos oncologistas, cirurgiões, além dos biólogos. São várias áreas que trabalham juntas por essa ferramenta que auxiliará no tratamento de milhares de pacientes”.
Com informações do Jornal da USP
