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10 mulheres que são referência no serviço público

Servidor Público
06 Março 2026
06 Março 2026

Elas se reinventam e encontram soluções nos laboratórios das universidades públicas, nas salas de aula, nos palcos, nos mais diversos territórios  

Por Andréa Ascenção e Jéssica Silva

Quando uma mulher avança, toda a sociedade progride. Neste Dia Internacional da Mulher (8 de março), a Folha do Servidor destaca o trabalho de 10 servidoras que são referências de como construir proteção; inovar e reconhecer potência, seja nos palcos, nos saberes ancestrais ou da própria natureza, mesmo que para isso seja preciso ressignificar a própria existência.

Elas vêm de toda parte, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco e geram impacto que transborda os muros do Brasil.

Confira abaixo 10 mulheres que são referência no serviço público:

 

Tatiana Coelho de Sampaio

A mente por trás de uma promissora cura para paralisia

0306 Imagem interna TatianaTatiana Coelho de Sampaio, líder da pesquisa sobre a polilaminina, em entrevista ao programa Roda Viva, exibido pela TV Cultura. Foto: Nadja Kouchi/Divulgação 

Recentemente, Tatiana Coelho de Sampaio viralizou. A bióloga, professora de histologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto de Ciências Biomédicas, da UFRJ, onde conduz pesquisa pioneira, publicou em agosto de 2025 os primeiros resultados de um medicamento experimental, a polilaminina, que recuperou os movimentos de pacientes com lesões na medula espinhal.

A polilaminina é um polímero elaborado em laboratório a partir da laminina, uma proteína extraída da placenta, capaz de modular o comportamento das células e a organização tecidual durante o desenvolvimento e a regeneração do sistema nervoso.

É uma promissora cura para a paraplegia e a tetraplegia, o que tem favoritado o nome de Tatiana para uma futura disputa do Prêmio Nobel de Medicina.

Kellen Vilharva Guarani-Kaiowá

Saber ancestral impulsiona academia e orienta a proteção dos territórios indígenas

0306 Imagem interna KellenKellen Vilharva Guarani-Kaiowá na região do Xingu, MT. Foto: acervo pessoal

A bióloga Kellen Vilharva Guarani-Kaiowá passou a integrar o quadro de servidores da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em janeiro. Lotada na Coordenação Regional Xingu, sediada em Canarana, no Mato Grosso, ela atua no Serviço de Gestão Ambiental e Territorial (SEGAT), cujo objetivo é a proteção, o monitoramento e a fiscalização das terras indígenas por meio da implementação de ações ambientais, do etnodesenvolvimento e da prevenção de ilícitos para garantir a integridade dos territórios e recursos naturais.

Paralelamente, Kellen conduz pesquisa que integra conhecimentos tradicionais indígenas e ciência. Com foco na cosmologia do Cedro Rosa (Cedrela fissilis), a doutoranda em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realiza testes iniciais na folha e casca do Cedro Rosa, que possui potencial farmacológico.

Considerada uma árvore-mãe, o Cedro Rosa é uma das espécies que sustenta todo o ecossistema ao seu redor com sua trama de raízes, alimentando outras árvores. Em tupi-guarani, é conhecido como acaiacá, que significa árvore-piramidal e, também, como ygaribá, que significa árvore-das-canoas.

Em 2024, Kellen foi uma das protagonistas da série documental “Ciência: substantivo feminino”, que lança um olhar sobre a trajetória de dez cientistas brasileiras do passado e do presente para refletir sobre as contribuições das mulheres à ciência e os obstáculos que elas enfrentam. Disponível no Globoplay. 

Janaina Lima

Visibilidade e acesso à saúde para população trans


0306 Imagem interna JanainaLegado de Janaina Lima permanece vivo no Centro de Referência de Saúde Integral para a População de Travestis e Transexuais. Foto: Rede Trans Brasil

Paraibana que cresceu em São Paulo, Janaina Lima é sinônimo de luta pelos direitos da população LGBTQIAPN+. Ela foi a primeira travesti a presidir o Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo, eleita em 2012.

Formada em Pedagogia, Janaina coordenou o Programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, que promove recolocação profissional, reintegração social e resgate da cidadania para pessoas trans. Ainda, atuou diretamente na coordenação de políticas públicas da cidade para a comunidade LGBT e na Rede Trans Brasil.

A ativista morreu em 2021, mas seu legado de luta e representatividade segue eterno. Ela dá nome ao Centro de Referência de Saúde Integral para a População de Travestis e Transexuais (CR POP TT), inaugurado em 2023, na região central paulistana. O serviço presta atendimento em oito especialidades da medicina além de equipe de enfermagem e serviço social.

Rafaela Campostrini Forzza

Conhecimento e conservação da natureza

0306 Imagem interna RafaelaRafaela Campostrini Forzza, foi crucial para tirar o Reflora do papel e cumprir a meta da ONU. Foto: Arquivo pessoal

A pesquisadora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é uma das coordenadoras do projeto Reflora, vencedor do Prêmio Espírito Público 2024, na categoria Meio Ambiente e Emergência Climática.

Especialista em Ciências Biológicas com mais de 30 anos de atuação na área, Forzza fez parte dos 980 cientistas que catalogaram as mais de 46 mil espécies nativas incluídas na plataforma online Reflora.

Com dados, fica mais fácil atuar na conservação da biodiversidade. Assim, o Reflora foi decisivo para que o Brasil conseguisse cumprir a Meta 1 estabelecida pela Estratégia Global para a Conservação de Plantas, no âmbito da Convenção da Diversidade Biológica da Organização das Nações Unidas (ONU), para os anos de 2010 e 2020.

 

Léa Garcia
Primeira brasileira indicada ao prêmio de Melhor Atriz em Cannes

0306 Imagem interna LeaRubens de Falco e Léa Garcia em cena do documentário “A negação do Brasil”. Foto: Divulgação

Léa Lucas Garcia ingressou no Ministério da Saúde na década de 1960, como servidora do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENARU), no Rio de Janeiro. No Hospital Pinel, em Botafogo, montou um teatro para tratar pacientes, por meio de arteterapia. Léa conciliou o cargo público com a carreira de atriz até a década de 1990, quando se aposentou pelo Ministério da Saúde.

Em 1952, Léa começou a atuar no Teatro Experimental do Negro (TEN). Em 1960, sua personagem, Serafina, no longa metragem Orfeu Negro, lhe rendeu uma indicação ao prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Cannes – a primeira vez que uma atriz brasileira foi indicada.

No dia 15 de agosto de 2023, a atriz seria homenageada no Festival de Cinema de Gramado, com o Troféu Oscarito, mas teve um infarto e faleceu aos 90 anos.

Neste ano, a Mocidade Alegre venceu o Carnaval de São Paulo com o enredo sobre Léa Garcia. O desfile reviveu a trajetória da atriz negra símbolo de resistência contra o racismo no cinema, teatro e televisão.

Claudia Moraes
De sobrevivente da violência contra a mulher à salvadora

0306 Imagem interna ClaudiaA criadora do programa Patrulha Maria da Penha, Claudia Moraes, é tenente-Coronel da PMERJ. Foto: Instagram @claudiamoraes0080

Aos 14 anos, Claudia Moraes sofreu abuso* dentro de um ônibus a caminho da escola. Aos 26 anos ingressou na Academia da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Aos 37 anos começou a participar do Dossiê Mulher, que consolida informações sobre a violência contra a mulher no estado do Rio de Janeiro. A partir daí engajou-se na leitura de estatísticas, estudou métodos de prevenção e redução de casos por meio de políticas públicas, fez mestrado em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e se tornou a primeira da turma de pós-graduação em Gênero e Direito da Escola de Magistratura.

Em agosto de 2019, aos 46 anos, criou, com o apoio da PMERJ, o programa Patrulha Maria da Penha – Guardiões da Vida, cujo principal objetivo é garantir que as medidas protetivas de urgência sejam efetivamente cumpridas, proporcionando às mulheres uma rede de segurança e apoio.

Até 2023, o programa realizou mais de 20 mil atendimentos, entre eles: visitas domiciliares, fiscalizações de medidas protetivas e acompanhamento contínuo das vítimas, o que reduziu aproximadamente 35% os casos de reincidência.

 

Débora Garofalo
Primeira pessoa a receber o prêmio de educador mais influente do mundo

0306 Imagem interna DeboraDébora Garofalo, a educadora mais influente do mundo, segundo a Varkey Foundation. Foto: Divulgação

Quando chovia, as imediações da Escola Municipal Ary Parreiras, na capital paulista, ficavam cheia de lixo, impedindo os alunos de irem para a aula. Incomodada com a situação, em 2015, a professora Débora Garofalo passou a recolher materiais recicláveis pelas ruas da cidade e criou o projeto "Robótica com sucata promovendo a sustentabilidade". Mais de uma tonelada de recicláveis foi usada para desenvolver robôs, controles remotos e diversos protótipos de carrinhos, aeronaves, barcos e uma máquina de refrigerante.

Em 2019, Débora alcançou reconhecimento global ao ser finalista do Global Teacher Prize, considerado o “Nobel da Educação”, posicionando-se entre os 10 melhores professores do mundo. Seu projeto foi reconhecido como política pública nacional, democratizando o acesso à tecnologia e à cultura maker.

Sua vasta experiência se estende à gestão de políticas públicas, com atuação destacada na liderança da Escola de Formação dos Profissionais da Educação do Futuro, a EMFORPEF, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, e como Diretora de Inovação na MultiRio, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Este ano, Débora se tornou a primeira pessoa a receber o prêmio de educador mais influente do mundo, pela Varkey Foundation.

Ana Rosa Campos

Segurança pública para todas as mulheres

0306 Imagem interna Ana RosaAna Rosa Campos inovou com o aplicativo “Chame a Frida”. Foto: Acervo Prêmio Espírito Público

Ana Rosa Campos é escrivã da Polícia Civil de Minas Gerais e idealizadora do projeto “Chame a Frida”, uma atendente virtual que, por meio do aplicativo WhatsApp, presta atendimento a mulheres vítimas de violência*. O chatbot fica disponível para mensagens 24 horas por dia e as encaminha para policiais em plantão, identifica casos de urgência e pode receber a localização das vítimas.

O projeto, que nasceu em 2020 na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) em Manhuaçu (MG), onde Ana atua, alcança operação em 50 municípios de diferentes regiões mineiras. A ferramenta também disponibiliza informações sobre a Lei Maria da Penha e de outros direitos da mulher em situação de violência.

Com “Chame a Frida”, a servidora inovou no setor público e pôde aproximar a ajuda a quem mais precisa, de forma simples e inteligente, sendo reconhecida por diversas premiações como o Prêmio Espírito Público 2021 no eixo setorial Segurança Pública.

Luciana Santos

IA para previsão e prevenção a deslizamentos de terra

0306 Imagem interna LucianaLuciana Santos, a primeira mulher a assumir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. Foto: MCTI

A pernambucana está acostumada a ocupar espaços em que antes só se via homens. Santos é formada em Engenharia Elétrica – curso ainda majoritariamente masculino; de cerca de 135 mil profissionais com registro ativo no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), apenas 11.017 são mulheres. E, sua caminhada não parou por aí, é a primeira mulher a assumir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) no País, desde dezembro de 2022.

Quando vice-governadora de seu estado natal (2019-2022), desenvolveu a ação “Pernambuco com Elas”, que objetiva fortalecer e ampliar políticas públicas de trabalho e renda para mulheres. Já a frente do MCTI, viabilizou a tecnologia em favor das pessoas. Lançou a ferramenta de previsão e prevenção a deslizamentos de terra “GeoRisk”.

O sistema desenvolvido pelo Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) utiliza inteligência artificial para reunir informações e prever deslizamentos com até 72 horas de antecedência. O projeto ficou em primeiro lugar na categoria Inovação em serviços ou políticas públicas no Poder Executivo Federal na 29ª edição do Concurso Inovação no Setor Público, em 2025, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap) com votação popular.

Renata Moura dos Santos

Para crescer com acolhimento, ela ressignificou a favela

0306 Imagem interna RenataRenata Moura dos Santos é idealizadora do projeto “Pra ver se eu me enxergo!” Foto: Acervo Prêmio Educador Nota 10

A professora Renata Moura dos Santos apresentou um mundo totalmente novo e, ao mesmo tempo, já conhecido aos seus alunos do EMEI Parque Bologne, localizado no Jardim Ângela, zona Sul da capital paulista. Ela contribuiu para que as crianças da escola vissem beleza e acolhimento em seu próprio bairro por meio do projeto “Pra ver se eu me enxergo!”, vencedor do prêmio Educador Nota 10, de 2025, no eixo temático Direitos Humanos.

Renata percebeu que as crianças falavam “favela” como algo pejorativo, inferior. Por meio do projeto pedagógico, com atividades culturais e lúdicas, ela ressignificou o termo, que passou a ser associado com delicadeza, acolhimento e – o principal – pertencimento. A iniciativa da professora, bem recebida por alunos e pais, virou arte no muro da escola para toda a comunidade, feita pelo grafiteiro e artista plástico Michel Onguer.

0306 Imagem interna MuroMuro do EMEI Parque Bologne, localizado no Jardim Ângela, zona Sul da capital paulista. Foto: Secretaria Municipal de Educação/Prefeitura Municipal de São Paulo

*Em caso de violência contra a mulher, ligue gratuitamente 180.

0205 Imagem Interna CTA 95 anos

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