Mulheres são maioria no funcionalismo público brasileiro, mas ganham menos

Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP) aponta diferenças salariais, inclusive na área da saúde, que tem sido crucial na luta contra Covid-19, e defende a igualdade de gênero nos Três Poderes


O presidente da entidade, Álvaro Gradim, cita estudo publicado no final do ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), no qual consta que as mulheres são maioria entre os servidores municipais, estaduais e federais do País, mas ganham 24% menos do que os homens. “Precisamos trabalhar muito para combater essas desigualdades, inclusive para que o poder público seja um exemplo e referência”.

No setor estatal, a participação feminina é maior em relação ao que ocorre na iniciativa privada, mas a diferença de gênero, com base na média salarial do funcionalismo, também é recorrente. O IPEA iniciou essa série histórico em 1986, À época, o percentual de vínculos no setor público era o mesmo entre os sexos. Porém, a participação feminina cresceu, alcançando 59% no ano de 2017.


Heroínas na guerra contra a Covid-19

Álvaro Gradim, que é médico pneumologista, salienta que as mulheres dos serviços públicos de saúde têm sido cruciais na linha de frente do combate à pandemia. “E a população feminina, de um modo geral, também terá papel fundamental na retomada das atividades”, frisa, citando o Relatório Especial Covid-19 n⁰ 9: A autonomia das mulheres na recuperação sustentável e com igualdade, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

“O estudo mostra que 73,2% das pessoas empregadas na área de saúde no continente são mulheres. Elas estão enfrentando uma série de condições de trabalho extremas, como extensas jornadas e maior risco de exposição e contaminação pelo vírus. No entanto, sua renda é 23,7% inferior à dos homens do mesmo setor”, enfatiza o presidente da AFPESP.

Gradim ressalta que, especificamente no Brasil, a situação é muito semelhante. As mulheres são a principal força de trabalho no setor, representando 65% dos mais de seis milhões de profissionais ocupados nos segmentos público e privado, tanto nas atividades diretas de assistência em hospitais, quanto na atenção básica. É o que indicam dados do IBGE. Em algumas carreiras, como fonoaudiologia, nutrição e serviço social, as profissionais representam quase a totalidade, ultrapassando 90% do total. Em outras, como enfermagem e psicologia, sua participação supera a 80%. “Infelizmente, continua existindo em nosso país a inaceitável discriminação salarial, em todas as áreas e na saúde, na qual a importância do trabalho feminino foi enfatizada nesta pandemia da Covid-19”.

A diferença salarial entre os profissionais da saúde é apontada com clareza em estudo de 2018: a quarta edição da Pesquisa Demografia Médica no Brasil, realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com apoio do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e do Conselho Federal de Medicina (CFM). Os pesquisadores indicaram que 80% das mulheres da área ocupam as três classes de renda inferiores e 51% dos homens estão nas três mais elevadas. Com relação aos níveis salariais mais elevados, 17% são direcionados aos médicos e apenas 4% às médicas.

“Precisamos avançar no sentido de mitigar a discriminação salarial de gênero na saúde e em todos os setores de atividades”, afirma o, concluindo: “Solucionar essa distorção histórica seria a melhor maneira de comemorar o Dia Internacional da Mulher”, afirma o presidente da AFPESP.