Escritor pré-modernista foi tema da palestra ministrada pelo professor e servidor público aposentado João Raimundo Coutinho
Por Andréa Ascenção
Realizada no Auditório da Sede Social, na última quinta-feira (11), a 86ª Reunião Ordinária da Academia de Letras, Ciências e Artes (ALCA), da AFPESP, foi presidida por Aclibes Burgarelli, também chefe de gabinete da Diretoria Executiva da associação, que deu as boas-vindas ao palestrante convidado João Raimundo Coutinho.
“Exatamente nesse dia 11 de agosto, em que se comemora a instalação dos primeiros cursos jurídicos no Brasil, nosso querido professor João, membro de uma academia co-irmã sacrificou alguns momentos para nos doar preciosas palavras a respeito de Lima Barreto”, disse Burgarelli.
A reunião ordinária ainda contou com a participação de outros membros da ALCA: Ary Domingos do Amaral (1º vice-presidente), Elvira Stippe Bastos (2ª vice-presidente), Janethe Akiko Nakamura Monteiro (1ª secretária) e Antônio Carlos Duarte Moreira (cadeira nº 3 de Letras e ex-presidente da AFPESP).

Da esquerda para a direita: A rtur Marques (presidente da AFPESP), Aclibes Burgarelli (presidente da ALCA), Antônio Carlos Duarte Moreira (cadeira nº 3 de Letras e ex-presidente da AFPESP), João Raimundo Coutinho (palestrante), Ary Domingos do Amaral (1º vice-presidente da ALCA), Elvira Stippe Bastos (2ª vice-presidente da ALCA), Janethe Akiko Nakamura Monteiro (1ª secretária da ALCA). Foto: Elisa Izumi Torres
Também presente, Artur Marques, presidente da AFPESP, fez referência à criação dos primeiros cursos de Direito no Brasil, ocorrida em 1827.
“É com muita alegria que eu compareço novamente nesta reunião. Quero agradecer a presença de todos e gostaria de estimular-lhes a participarem mais ativamente, inclusive trazendo convidados, conferencistas para aprimorarmos a nossa cultura. E, não poderia deixar de dar uma palavra ao dr. Antônio Carlos Duarte Moreira, que reúne duas qualidades: de jornalista e de advogado. Todos nós sabemos que hoje é o famoso Dia do Pendura. Essa tradição dos acadêmicos remonta a própria fundação dos cursos. Hoje o que nós temos é um pendura solidário [invés de sair sem pagar a conta nos bares e restaurantes, os estudantes de Direito doam o valor da refeição (ou parte dele) para instituições beneficentes]", articulou Artur Marques.
Eleição
O presidente da ALCA anunciou que amanhã, dia 16 de agosto, será aberto um edital para preenchimento de 11 vagas na academia. O intuito é iniciar 2023 com todas as cadeiras ocupadas.
Palestra: Lima Barreto, o crítico da República em seus primórdios
Ao pinçar eventos cruciais da vida do escritor Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) e contextualizar a importância de suas obras, o professor Coutinho despertou o interesse da plateia para os romances, contos e crônicas atemporais do pré-modernista, pioneiro ao colocar o negro como protagonista na literatura brasileira.
“Escolhi como tema ‘Lima Barreto, o crítico da República em seus primórdios’ por considerar que nascido no fim do Império, a sua formação escolar, cultural e literária se dá justamente nos primórdios da República, que embora desejada por muitos republicanos de boa-fé, teve como apoiadores principais a elite cafeeira de São Paulo e ex-proprietários de escravos descontentes com o governo imperial por causa da Lei Áurea”, explicou Coutinho.
Vale destacar que Lima Barreto, neto de escravizadas, completou sete anos no dia 13 de Maio de 1888, quando a Princesa Isabel sancionou a lei que aboliu a escravidão no Brasil.
“O Lima Barreto viveu em numa época em que vicejavam as teorias de superioridade da raça. A raça branca como superior às outras. Tenho a impressão de que essa discriminação que ele sentia contribuiu muito para que ele se tornasse esse homem desgostoso com a vida, contra tudo e contra todos. Quando o negro não tem conhecimento ele se conforma ou se revolta de uma forma inadequada. Agora quando ele tem conhecimento, como o Lima Barreto tinha, acaba sofrendo mais. Ele percebe o quanto ele é discriminado, rejeitado, castrado, impedido de realmente se realizar”, analisou o professor.
Por outro lado, Coutinho aponta que a tomada de consciência é necessária – ainda hoje – para transformar essa realidade: “O negro só pode realmente conquistar espaço, se auto elevar, se realizar como cidadão em igualdade com os demais cidadãos na medida em que ele se torna consciente. Eu acho que Lima Barreto deve ser lido por negros e brancos porque essa questão do preconceito e da discriminação não pode ser resolvida por uma parte. O branco também tem que conhecer essa história do negro para ter uma visão mais correta. Por que na escala social o negro ocupa o lugar menos visível, de maior pobreza, de não participação no poder, seja político, econômico, etc? Tem uma história que precisa ser compreendida e resgatada”, defendeu Coutinho.
Caminhos cruzados
Atualmente, Coutinho ocupa a cadeira 38 da Academia Contemporânea de Letras, cujo patrono é Lima Barreto. Além da negritude e da literatura, em comum, eles têm o serviço público. Em 1903, Lima Barreto passou a ocupar o cargo de amanuense (escriturário) da Secretaria da Guerra. Em 1980 Coutinho começou a lecionar. “Trabalhei principalmente na rede pública estadual e municipal. Dei aula para o fundamental 2, correspondente ao ginásio. Depois no ensino médio. Fui servidor público por 34 anos”, contou o professor.

Professor aposentado e palestrante João Raimundo Coutinho. Foto: Elisa Izumi Torres
Durante os anos 1990 ao selecionar textos para trabalhar em sala de aula, Coutinho se deparou com o conto “O homem que sabia javanês”. “Esse foi meu primeiro contato com Lima Barreto. Também na escola, na faculdade eu já tinha referências, mas só em situação de trabalho que eu vou perceber a qualidade de obra dele. Depois eu fui lendo mais e percebi que ele é um autor que ainda tem muito a dizer para nós até atualmente”, revelou Coutinho.
A palestra foi encerrada com a leitura de um poema, de autoria de Coutinho, baseado na biografia de Lima Barreto e suas críticas sociais ácidas.
Lima Barreto: Criador e criaturas*
Como falar de um escritor
Mulato de triste figura
Que nos legou o fulgor
De sua vasta literatura?
Transitou mais entre urtigas
Do que em florido jardim
E, como seu Policarpo Quaresma,
Também teve um triste fim.
Em um dos seus contos famosos
Ironiza, vejam vocês,
Tipos espertos, sabências falsas, enganosos
Que, com muita desfaçatez
Alcançam postos gloriosos
Fazendo grudar como pez
Falácias de sabedorias
Como fez com maestria
O homem que a todos mentia
Que falava javanês...
Em outro personagem seu
Sua persona se alinha
No triste aniquilamento
Do ideal que em início sustinha
O mulato como ele
O escrivão Isaías Caminha
E este outro angustiado
Contra maus, ignorantes, sórdidos
Antipáticos, agaloados
De gratidão incapacitados
Dos quais tinha mais medo
Que de prostitutas, assassinos
Meros gatunos franzinos
Ou perigosos ladrões
Pois os julgava gente até boa,
Se com justiça comparados
Àqueles perus graduados
Pretensiosos barões.
Este crítico, meu ouvinte
Lendo a obra você verá
Que é tanto Lima, o criador
Quanto a sua criatura,
O filósofo, humanista
Questionador
Sem pretensões a doutor
O escrivão Gonçalves de Sá.
E críticas mais contundentes
A políticos incompetentes
Em nada republicanos
De antidemocráticas práticas
E de hombridade carentes
Estão em Numa e a Ninfa
Romance que talvez seja
De Lima o mais insolente...
Em outro conto famoso
Este autor mui desgostoso
Aponta para a esbórnia
Da ignorância e da ambição
Que quase causa a destruição
De sua Nova Califórnia.
E assim, caras e caros ouvintes
Com estes versos tortuosos
Pretendi somente o seguinte
Chamar sua atenção
Pr' este escritor na contramão
Do seu Brasil de então
Este foi Lima Barreto
Que em seus contos, romances, crônicas
(Não me consta que fez sonetos)
Nos traça visão panorâmica
Dos problemas, dilemas, nós górdios
De nossa República em seus primórdios.
*Poema de João Raimundo Coutinho, gentilmente cedido para publicação no portal de notícias da AFPESP.



