Por Gilberto Natalini
Vivemos em uma sociedade marcada pelo consumo crescente. Nas últimas décadas, a expansão da produção industrial, da urbanização e do consumo de bens ampliou significativamente a geração de resíduos sólidos em todo o mundo. Segundo estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, 2024), a geração global de resíduos urbanos poderá ultrapassar 3,8 bilhões de toneladas anuais até 2050, caso os atuais padrões de consumo sejam mantidos.
Alimentos, embalagens, eletrônicos, produtos descartáveis e inúmeros outros bens fazem parte de uma lógica de consumo acelerado que aumenta continuamente a pressão sobre os recursos naturais e sobre os sistemas de gerenciamento de resíduos. A produção e o consumo são gigantescos, ampliando os desafios relacionados à coleta, tratamento, reciclagem e destinação final adequada desses materiais.
Em um planeta com mais de 8 bilhões de habitantes, o atual modelo de produção e consumo exerce uma pressão crescente sobre os recursos naturais, especialmente diante das desigualdades existentes nos padrões de consumo entre diferentes regiões e classes sociais. Ao final desse ciclo permanecem os resíduos gerados por esse consumo, popularmente chamados de lixo. E é justamente nesse ponto que surge um dos maiores desafios ambientais da atualidade.
O Brasil possui, desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), considerada um importante marco regulatório na gestão de resíduos. A legislação estabelece princípios fundamentais, como a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, a logística reversa, a eliminação dos lixões e a priorização da não geração, redução, reutilização e reciclagem dos resíduos.
Apesar dos avanços legais, muitos municípios brasileiros ainda enfrentam limitações técnicas, operacionais e/ou financeiras para implementar as diretrizes previstas na legislação, especialmente no que se refere à destinação final adequada dos resíduos. Embora o país apresente uma taxa de coleta de resíduos urbanos superior a 90%, cerca de 31,9% dos municípios brasileiros ainda utilizam lixões como forma de descarte (Abrema, 2024)*.
Desta forma, boa parte do nosso lixo de cada dia, vai parar no seio da natureza, contaminando o solo a água e o ar, voltando como um bumerangue contra a saúde e a vida das pessoas e demais seres vivos. Além dos impactos ambientais decorrentes do destarte irregular, os lixões também representam riscos à saúde pública, favorecendo a proliferação de doenças e afetando principalmente as populações mais vulneráveis.
Natalini: Embora o país apresente uma taxa de coleta de resíduos urbanos superior a 90%, cerca de 31,9% dos municípios brasileiros ainda utilizam lixões como forma de descarte. Foto: iStock
Ainda assim, o compromisso com a destinação final adequada de resíduos não é apenas da gestão pública. Muitas pessoas ainda acreditam que sua responsabilidade termina no momento em que o lixo é colocado para fora de casa. No entanto, a destinação correta começa justamente na separação do lixo dentro das residências. Quando recicláveis, resíduos orgânicos e materiais potencialmente perigosos são descartados juntos, perde-se grande parte da possibilidade de reaproveitamento.
A reciclagem surge, nesse contexto, como uma importante ferramenta para reduzir os impactos ambientais causados pelo excesso de resíduos. Além de diminuir a quantidade de lixo encaminhada para aterros e lixões, reciclar contribui para a economia de recursos naturais, reduz o consumo de energia na produção industrial e gera emprego e renda para milhares de pessoas, especialmente cooperativas e catadores de materiais recicláveis.
No entanto, ainda existe um longo caminho a ser percorrido. Os índices de reciclagem no Brasil ainda permanecem abaixo do necessário. Estimativas apontam que o país recicla apenas cerca de 8% dos resíduos sólidos urbanos produzidos (Abrema,2024b)*.
Diante dessa realidade, é fundamental compreender que reduzir a geração de resíduos, ampliar a reciclagem, reaproveitar materiais e incentivar o consumo consciente são atitudes que começam dentro de casa, mas dependem também de políticas públicas eficientes, educação ambiental e compromisso coletivo.
O planeta já demonstra sinais claros de esgotamento. Continuar tratando os recursos naturais e os espaços urbanos como depósitos ilimitados de resíduos não é mais uma opção sustentável para o futuro. Não podemos transformar o planeta num lixão. Isso não.
*Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema); textos originalmente publicados em novembro/2024 e dezembro/2024

Gilberto Natalini é coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista. No setor público destacou-se como secretário do Verde e do Meio Ambiente e secretário executivo de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo. Eleito vereador de São Paulo pela primeira vez em 2000, cumpriu o seu quinto mandato até 2020. É autor de 419 projetos de leis e tem 147 leis aprovadas. Suas principais bandeiras de vida são a democracia, o desenvolvimento sustentável, maior equidade social e a moralidade pública.




