Por Gilberto Natalini
Ao longo da história, a participação feminina na construção social sempre foi concreta, ainda que nem sempre reconhecida. Mulheres sempre estiveram presentes na formação das famílias e comunidades, bem como nas produções econômicas, culturais, científicas e políticas, ainda que tenham sido limitadas quanto à sua autonomia e ao espaço que lhes era permitido ocupar.
Durante séculos, estruturas jurídicas e sociais exaltaram essa limitação. No Brasil, o direito ao voto feminino foi conquistado em 1932, menos de um século atrás. O Estatuto da Mulher Casada, que garantiu autonomia profissional sem autorização do marido, é de 1962. A Constituição Federal que assegurou igualdade formal entre homens e mulheres foi promulgada em 1988. A Lei Maria da Penha, marco no enfrentamento à violência doméstica, é de 2006. Cada conquista representou não apenas um avanço para as mulheres, mas um fortalecimento institucional do país.
Sob a perspectiva histórica, esses avanços são recentes. Muitas mulheres que hoje atuam no serviço público nasceram quando parte desses direitos ainda não estava consolidada. Isso evidencia que a igualdade, embora reconhecida juridicamente, é uma construção contínua. No ambiente profissional por exemplo, muitas vezes persistem desafios relacionados à valorização feminina. Muitas vezes, não se trata de barreiras explícitas, mas de padrões culturais que se reproduzem de maneira sutil.
No campo da sustentabilidade, essa reflexão se torna ainda mais relevante. A gestão de recursos naturais, o enfrentamento das mudanças climáticas e a construção de políticas públicas eficazes exigem perspectivas e capacidades técnicas diversas. Sendo assim, a presença feminina nesses espaços amplia a qualidade das decisões e fortalece a governança.
No Brasil, muitas mulheres tiveram papel relevante no âmbito da saúde e sustentabilidade. Marina Silva consolidou políticas públicas ambientais em momentos estratégicos da história recente. Já Isabela Teixeira, por exemplo, ampliou a inserção do país nas pautas climáticas internacionais. Suely Araújo destacou-se na defesa técnica das instituições ambientais. A missionária Dorothy Stang tornou-se referência na defesa socioambiental da Amazônia.
Da mesma forma, na cultura e na literatura, mulheres como Tarsila do Amaral, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz e Carolina Maria de Jesus ampliaram horizontes artísticos e sociais, contribuindo para o desenvolvimento cultural do Brasil.
Essas trajetórias evidenciam que o caminho percorrido nas últimas décadas é transformador. Cada espaço conquistado fortalece as nossas instituições e inspira novas gerações de mulheres. Alguns desafios, porém, permanecem. O aumento das denúncias de violência contra a mulher, por um lado, evidencia a persistência de desigualdades; já por outro, demonstra maior confiança nos mecanismos institucionais de proteção, tais quais a Lei Maria da Penha.
Já no âmbito do serviço público, essa responsabilidade é ainda maior. Instituições comprometidas com o desenvolvimento sustentável devem também estar comprometidas com a igualdade de gênero em suas políticas internas, suas lideranças e em suas ações junto à sociedade. Neste contexto, a AFPESP reconhece e louva o imprescindível trabalho das mulheres, em especial as funcionárias públicas, na construção de um mundo mais sustentável.
Portanto, mais do que celebrar trajetórias já consolidadas, este é um chamado à continuidade e à ampliação de espaços pelas mulheres, uma vez que quando a igualdade avança, toda a sociedade avança com ela.
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Gilberto Natalini é coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista. No setor público destacou-se como secretário do Verde e do Meio Ambiente e secretário executivo de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo. Eleito vereador de São Paulo pela primeira vez em 2000, cumpriu o seu quinto mandato até 2020. É autor de 419 projetos de leis e tem 147 leis aprovadas. Suas principais bandeiras de vida são a democracia, o desenvolvimento sustentável, maior equidade social e a moralidade pública. |




