Por Ulysses Francisco Buono
Vivemos em um mundo moderno, tudo muito rápido e virtual, em que antigas tradições estão desaparecendo. A conversa entre pessoas e grupos nas calçadas deu lugar ao WhatsApp, à internet, ao Instagram e a tantas outras ferramentas digitais.
Esses problemas atingem todas as idades, mas, para os idosos, são muito mais danosos. O corpo do idoso apresenta um metabolismo mais lento e pode reagir de forma mais intensa a determinados estímulos.
Outro grave problema mundial é o uso abusivo e sem controle de medicamentos “para os nervos”, “para dormir”, “para pressão” e tantos outros. Falo, em especial, do uso excessivo dos benzodiazepínicos* (Rivotril, Diazepam, Clonazepam, Lorazepam, Ativan, Alprazolam, entre outros).
Essas medicações têm seu valor quando bem indicadas, sob supervisão médica, fazendo parte de um esquema de tratamento no qual, em geral, o remédio é apenas um dos elementos, e não o único.
Mas, nos idosos, o problema pode ser ainda mais sério, não apenas pelas características naturais do envelhecimento, mas também pela presença de outras patologias que frequentemente exigem o uso de diversos medicamentos.
O uso abusivo dos benzodiazepínicos pode levar à dependência, com necessidade de aumento progressivo das doses. Essa dependência pode ocasionar, com frequência, problemas como perda de memória, alterações de humor, diminuição das capacidades cognitivas (visão, fala, pensamento etc.), além de efeitos gastrointestinais.
Outro problema grave é a retirada ou interrupção abrupta desses medicamentos – algo comum, já que são de receita controlada e muitos usuários acabam ficando sem o remédio. Isso pode desencadear a síndrome de abstinência, com reações sérias no organismo.
Por isso, é fundamental que o idoso compreenda as alterações naturais do envelhecimento e o aceite. Ao mesmo tempo, deve buscar atividades interativas: ocupar o tempo com algo prazeroso, participar de grupos de interesse, conversar, entrar para clubes de música, dança, tricô e outros.
É importante entender que, conforme envelhecemos, tendemos a dormir menos. Evitar longas sonecas durante a tarde pode ajudar a preservar o sono noturno.
Também é essencial aceitar que estamos vivendo mais – uma dádiva – e parar de tentar corrigir “este mundo moderno”. Assim como nós, os jovens de hoje também enfrentarão um mundo totalmente diferente quando chegarem aos seus 50 ou 60 anos.
Vamos abaixar a guarda e agradecer a Deus por esses anos a mais que ele nos concedeu, aproveitando-os com sabedoria, equilíbrio e saúde.
*Benzodiazepínicos são medicamentos utilizados em medicina psiquiátrica por suas propriedades ansiolíticas.

Ulysses Francisco Buono é coordenador de Assistência à Sáude. Atuou como médico gerente geral da Interclínicas durante duas décadas e como consultor do diretor de saúde da Porto Seguro por 11 anos. Graduou-se pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em 1971 e concluiu residência médica pediátrica em 1973.



